"Cascella e o grande público"
Vittorio Sgarbi
Jamais urn pintor era considerado 'born artista', em vez de artesão, caso ainda nao estivesse na consideraçao dos que olhavam para a arte, quando nao a financiavarn. A partir de Oitocentos, corn a era rornântica, as coisas mudaram. 0 artesão tornou-se artista, tendo afirmado os direitos invioláveis de seu inato, livre, irrefutável gênio criativo. 0 artista romântico não quer mais se sujeitar aos gostos do público; é o público que deve sujeitar-se a seu gênio, que deve subjugar-se a sua grandeza.
Michele Cascella, ao contrário, sempre acreditou que sua arte fosse antes de mais nada para o püblico. Uma escoiha que o distancia dos 'outros Cascella', artistas importantes, mais em dia do que ele, que perfeitamente assurnirarn o conceito de arte 'so para pessoas do ofIcio'.
Não me parece, porém, que a atitude de Michela Cascella deva ser considerada como sintorna de regressão dentro dos tempos em que viveu. Ao contrário, Cascella interpretou a arte de acordo corn urn valor social totalmente evoluído, respeitoso das mutaçOes rnateriais e ideológicas que se deram no decorrer do século XX. Cascella acreditava, por assim dizer, que na era da civiização de massa, na era da civilização das irnagens, na era da civilizaçao dernocrática, o artista tivesse por obrigaçao de se dirigir as 'pessoas', oferecendo-lhes balizas artísticas corn as quais se identificar.
0 estreante Cascella só podia deparar corn aquele Abruzzo artIstico honrado e famoso que era de Francesco Paolo Michetti, ou seja, corn o caminho localista à pintura
Dedicatória de Gabriele d'Annunzio a Michele Cascella.
Dedicatória de Umberto Boccioni a Michele Cascella. 1914
moclernista italiana e européia, corn o Verismo tardio que é epopéia visceral de uma terra e de suas tradições, corn o folclore que éespírito de urn povo que ainda nao foi contarninado pelo 'rnorbo' do progresso, onde a cor pura éinalcançável veIdulo ernocional da vida vivida. Sua vida poderia ter sido a de urn 'sequaz de Michetti', epIgono tranquio de urn artista que teve por destino o de ditar lei por muito ternpo na arte de sua região, rnais outro cantor da retórica dos lugares nativos, o que corn certeza lhe renderia. 0 ainda jovern Cascella quis escolher caminhos mais incôrnodos e ousados, percursos mais aventurosos e cativantes, decidindo conhecer a pintura francesa nao através das meditações de Michetti ou de outros, mas diretamente em Paris nos anos épicos, determinantes para o desenvolvimento da arte conternporânea. No ano ern que Marinetti publica no 'Le Figaro' o Manifesto do Futurismo, no ano em que Picasso dá em Horta del Hebro o passo decisivo a viragem para o cubismo, no ano em que Matisse realiza uma obra-prima corno La Danse, 1909, Cascella expõe uma obra no Salon d'Automne, fato quase inacreditável para urn artista tao jovem e ainda por cima 'estrangeiro'. Acontecirnento este por si so de extraordinária importância na história das relações entre as artes italiana e francesa daqueles anos capitais, (hoje em dia tao no enfoque dos estudiosos), que não me parece tenha recebido ate agora o destaque merecido. A partir deste precoce contato parisiense, originou-se em Michele Cascella urna lealdade histórica aos termos lingüísticos surgidos do Pós Impressionismo, certarnente rnais indulgente para corn o lição originária de Monet do que para corn as sucessivas tendências 'hipercientíficas', expressionistas ou arcaistas-primitivistas. Ao mesmo tempo, aquele Pós-Impressionisrno tao a letra nao adotava passivamente módulos formais, que já haviam fincado raIzes no gosto da meihor burguesia internacional imunizandoa de alguma maneira contra os novos furores experimentais, (de acordo com o caminho traçado por outros artistas 'francesizados' como De Nittis e, parcialmente, Zandomeneghi), sendo mormente o retorno de uma estaçao do paisagismo italiano a fonte primeira de sua evolucão oitocentista. Os Palizzi, a Escola de Staggia, o cIrculo de Bellosguardo, os Macchiaioli, a Escola de Resina, Fontanesi, os Divisionistas lombardos, o próprio Michetti, haviam-se esforçado por mais de cinqüenta anos para individualizar uma paisagem moderna italiana que fosse de todos, na base das solicitações formais que vinham de além dos Alpes. Cascella resume e sublima esta classe de experiências, retornando ao mais óbvio dos aspectos do enfrentamento, aquele corn a pintura 'mae' francesa, tentando assirn alforriar o caráter estilistico nacional daqueles sotaques que excessivamente o condicionavam. Esta 'internacionalização' da rnatriz italiana é perseguida por Cascella através de urna reduçao do estilo a temas constantes e características formais uniformes, na tentativa de alcançar uma arte rnais moderna e ao rnesrno tempo de fácil compreensão.
E difícil escapar a fascinação que vem de Michele Cascefla, pintor inteligente e moderado, que possui uma invenção sedutora e urn oficio sapiente; e dfficil escapar a fascinaçao de seus quadros azuis e infinitos, porque ele insiste em lugares diferentes da nossa psicologia e da nossa cultura. Corn certeza, vemos aquilo que sabemos, rnas a força da arte reside justamente em conservar a estupefaçáo do dia a dia, na capacidade de maravilha, e nós ficamos atônitos diante dos
Tommaso, Andrea, Gioachino (de pé). Michele e Pietro Cascella.
Abertura de uma mostra de Michele Cascella em Berverly Hills. 1960.
resultados de Cascella. Olhando, encontramos urn mundo que de algurna forma nos pertence. O que importa para Cascella é evocar, aludir para urn mundo completo através de límpidos fragmentos de visao, abalando camadas de pensarnentos e de ernoções soterradas, que talvez jamais nos pertencerarn, mas que ele faz corn que acrediternos ser nossas. Este é o poder da sedução, do encantarnento das irnagens: que elas fincarn raIzes dentro de nós, corno se lá estivessem desde sempre. Escadas, muraihas, fortificaçoes, rnuros contra urn céu azulissirno sobre o mar, são na realidade arquiteturas do pensarnento úteis na definição de urn espaço rnentai, corno meros elementos cornpositivos . Nada de pitoresco, de rornântico, de sugestivo, entendose corn isso a cor local pode ser encontrado em Cascella. E corn certeza nada de angustioso. Coágulos pulvéreos de luz-cor compõem pianos granulosos próxirnos, nos quais a forma se determina, permanecendo na superficie para favorecer a sirnplificação da ernocão perceptiva:
as obras de Cascella não necessitarn de leituras dernoradas e em detaihe, entregarn-se irnediatarnente por aquiio que são, concentrando a própria riqueza cornunicativa, O próprio 'efeito', em poucos instantes.